Então, não?

 

Quando as pessoas ficam sabendo que você será pai as reações, na maior parte dos casos, são extremamente simpáticas. Algumas, não poucas, até mesmo afetivas - querem saber o nome da criatura, se é menino ou menina, quanto tempo falta. Esses, que por sorte são a maioria, são um motivo a mais para fazer valer a pena.

Mas tem uma minoria que está fora desse padrão. Criaturas de vários tipos, que podem ser resumidos em uns poucos:

O terrorista

Tem sempre histórias escabrosas para contar a respeito de cada fase da gravidez. Não perdoa um detalhe: sempre tem um parente, amigo ou conhecido com quem aconteceu algo terrível (ter conhecido gente assim, por exemplo).

O supersticioso

Não deixa fazer nada, tem simpatia para tudo. Não pode contar o nome da criança para os tios porque dá azar. Não pode montar o enxoval antes de nascer porque dá azar. A criança vai nascer em dia par? Má sorte. Em dia ímpar? Cuidado.

O profeta do apocalipse

Tem um comentário ruim sobre cada detalhe do futuro. Vai ter um filho? Ih, nunca mais você vai dormir. Vai nascer no calor? Ah, que perigo! Vai nascer no inverno? Coitado do bebê. É menino? Xí, só dá trabalho. É menina? Ih, quando ficar adulta você vai ver.

A comadre do mal (alguns chamam de "Tia Clotilde")

Dá palpite em tudo, do tipo de barriga ("É menino? Mas isso é barriga de menina") até o jeito de segurar o bebê, baseada em standards que não são considerados seguros desde 1613. Se você reclama, ouve que "estou falando para seu bem, mas se não quiser, tudo bem, não falo mais".

O "engenheiro de obra pronta" (créditos aos amigos do twitter):

Espera você fazer tudo o que tem que ser feito, não ajuda em nada e espera você terminar para dizer que está errado, viu?, era melhor ter feito de outro jeito.

O matemático

Aparentado com o Profeta do Apocalipse, mas diz tudo em números. Você conta que vai ter um filho e o sujeito começa a calcular - "Olha, só de fralda vai uns R$ 1200 por mês, fora alimentação, saúde, mais uns R$ 3000 de papinha, uns R$ 8000 de roupa..."

 

Porque a realidade dá muito medo, mas pode ser curiosamente cômica de tempos em tempos.

Corte aqui

 

Há um tipo pouco conhecido no mundo da gastronomia pé-no-chão. É o maníaco por envelopes.

Esse tipo, assim como o Don Juan de Elevador (ver post abaixo), tem uma área de atuação específica - padarias, bares e lanchonetes.

E um alvo: envelopes e sachês, sejam de sal, açúcar, adoçante, ketchup ou qualquer coisa que possa ser levada embora.

As motivações variam de um simples desejo de guardar coisas para mais tarde, como esquilos guardam nozes, até um discreto e reprimido sentimento de vingança contra o dono do lugar, "você vai ver, de envelope em envelope te levo à falência".

Sem mencionar auto-superação: poucas coisas requerem mais treino do que abrir alguns envelopes de ketchup ou maionese, sobretudo se você seguir as instruções "abra aqui".

E, de qualquer modo, está lá, é grátis (ok, está diluído no preço, tipo, 0,00043% de um cheeseburger), esperando para ser pego.

Pegar um monte não é crime, mas é estranho.  Zona cinza: não está errado, mas também não está certo.

Afinal, presume-se que você deve pegar o quanto vai usar (Kant, por exemplo, faria isso) e não o quanto se quiser (Schopenhauer, por exemplo, faria isso e se acharia o máximo).

Na maioria das vezes o negócio não é ostensivo. A pessoa olha para os lados, verifica se não tem ninguém vendo, e passa a mão em uns cinco ou seis envelopes. Coloca no bolso discretamente, sai.

Fica a impressão de que alguma coisa não está exatamente certa.

E lembra, não sei por que, um antigo episódio do Chaves.

Curioso.

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