E aí, gata?

 

O Don Juan de Elevador é uma sub-espécie do machão de padaria - tipo que passa boa parte do domingo no balcão, falando sobre temas ditos "de homem"e tem um estoque inesgotável de opiniões sobre qualquer assunto. Geralmente contra.

Derivado, o Don Juan de Elevador tem sua área de atuação mais limitada: sua principal característica é tentar passar cantadas nas situações mais inoportunas dentro, perto ou envolvendo elevadores. Freud explica.

Em geral, responde a qualquer frase com um galanteio. Outro dia, em um prédio chique na Berrini, teve um caso.

"Aperta o oito para mim por favor?", pediu uma moça, entrando no elevador. "Troco por um sorriso", respondeu um sujeito que lembrava uma mistura de Jece Valadão com Chuck Norris. A moça não fez caso e foi ela mesma apertar o botão.

Em geral, não seleciona quem vai cantar: qualquer mulher ligeiramente bonita é alvo.  E sempre acha que está abafando: se a mulher não responde, ou responde sem graça, ele insiste - às vezes, acrescenta uma voz sedutora.

"Segura a porta por favor?!", disse uma moça, em outra ocasião. "Só porque é você é bonita", disse um DJE com voz de "hey-baby-eu-já-cantei-com-Frank-Sinatra". Ela fechou a cara e entrou no elevador. Ele, invencível: "De carinha fechada você fica mais bonita". 

O DJE, como os outros tipos (Don Juan de Supermercado, Don Juan de Farmácia, Don Juan de Padaria, etc, etc, etc) se alimenta da esperança de que, um dia, alguma pessoa caia na cantada.

A única dúvida é qual a porcentagem de sucesso.

Passado e presente

 

Hoje começou uma limpeza geral.

Caixas antigas, sacolas, arquivos diversos. No fundo do armário, uma caixa de papelão escrito "fotos".

Abri com cuidado para não deixar o pó voar e encontrei pequenos álbuns, aqueles distribuídos de graça quando a gente revelava fotos.

Azuis e verdes, com a marca do fabricante, "Fuji Filmes", e a etiqueta do laboratório: "Ikazuka Fotos". Ao lado, o telefone: "62.34.99". Seis dígitos. Isso deu uma ideia da data.

Na capa, do lado de dentro, a letra de minha mãe: "Passeio, Dezembro/1978". Eu tinha, portanto, um ano e um mês.

Era provavelmente um passeio até o Frango Assado, típico da classe média daquele tempo. Lá tinha um parquinho, quadra e uns quiosques.

Fotos bonitas, com uma espécie de tom de verniz fosco das imagens daquela época.

Em uma, eu de camisa pólo e short escuro, andando em um velocípede. Ao lado, meu avô, sorrindo. Sempre lembro dele sorrindo.

Algumas fotos para frente, minh avó. Não a especialista em bolo de cenouras, a outra, especialista em bolo de fubá. Tenho poucas, mas ótimas, lembranças dela.

Uma foto de meu pai, mais ou menos como estou agora. Mesma idade, mesmo tipo físico, mesmo estilo, segurando um garoto no colo.

Fiquei olhando um bom tempo, tentando advinhar o resto.

De tudo.

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