Saber que um livro é difícil de encontrar imediatamente o coloca no topo da lista de procurados.
Não qualquer livro; bibliofilia é um esporte muito caro. Só os que interessam - e, se forem difíceis de achar, melhor ainda.
Estante Virtual é uma alternativa, mas tira o prazer da caça. Subir até o quarto andar de uma livraria antiga, descer ao subsolo úmido e escuro de outra, procurar atentamente nas prateleiras para encontrar o que se procura.
Perguntar aos vendedores é perda de tempo. A maior parte não tem a mínima noção de onde um livro pode estar. E também é desonesto: o legal desse tipo de busca é fuçar, desafiar o pó, ir aonde nenhum ácaro jamais esteve.
Anos atrás, Questões de Sociologia, de Pierre "precisa-me-amar" Bourdieu. Editado em 1983 pela Marco Zero, que logo depois faliu. Foram prensadas 1.000 cópias do livro. Uma delas foi encontrada por R$ 5 em um sebo de Pinheiros.
Desentocar Cultura Popular na Idade Média, de Bakhtin, demorou quatro anos. Foi achado na seção de Astronomia (?) de uma livraria no Itaim. Porque caçar livros exige andar de ônibus.
O caso mais grave foi Coisas Ditas, também de Bourdieu. Editado pela Brasiliense em 1990, esgotado durante dezesseis anos. Nem a editora tinha. Encontrado por acaso em uma livraria do centro. Morreu por R$ 60 mangos. Na semana seguinte a Brasiliense reeditou - por R$ 32.
Depois de comprar, chegar em casa, tirar o pó, encapar, ler.
A primeira visita a um sebo foi há mais ou menos uns dezesseis anos.
Com 14 recém-feitos, era o momento de explorar o mundo além do centro da cidade, mapeado desde os doze.
Estava andando com um amigo pela Joaquim Floriano, lá no Itaim, quando uma porta chamou a atenção. "Bagdá Books, livros usados", dizia a placa.
Olhamos, parecia uma enorme biblioteca escura, úmida e sombria, com livros caoticamente espalhados do chão ao teto. A imagem do paraíso.
Entramos, meio ressabiados, e fomos atendidos por um antipático dono - disse para não bagunçar os livros (?!) e que não vendia Playboy para menor de 18 anos, seus safados.
Foram horas explorando o lugar. Música, cinema, literatura. E, finalmente, contar o dinheiro para ver o que poderíamos levar. Um livro cada um e olhe lá.
Consegui arrematar a Pequena Crônica de Anna Magdalena Bach, belo relato da vida de J.S.Bach, escrito por sua segunda mulher. Meu amigo levou um livro científico. Anos depois se formou em Química, coitado.
Saímos, felizes com a descoberta. O Bagdá Books foi vendido para o atual dono, Celso, muito mais simpático. E a Pequena Crônica de Anna Magdalenda Bach continua lá na estante, lembrança da descoberta.
É fascinante ir à Casa Santa Luzia. Um exercício de antropologia.
Lá é fácil encontrar uma série de ítens difíceis de achar em outros supermercados. Gente classe AAA+, por exemplo.
Tanto os produtos quanto os preços são importados. Os clientes andam de um lado para outro com uma expressão blasé, sem sorrir nunca, aparentando tédio e enfado. Deve ser por causa das estritas regras de comportamento.
Clientes são proibidos de conversar com os empacotadores, manobristas e funcionários. No máximo ouve-se um "psiu, ei!" ou um "ei, menino, vem cá!". "Com licença", "por favor" e "obrigado" não são usadas. Quando alguém precisa passar com o carrinho, pára e fica com ar de "céus, que tédio" até a outra pessoa sentir isso e dar passagem, a contragosto.
Parece que, segundo uma lenda local, se clientes e funcionários se olharem nos olhos eles viram pedra. Para evitar isso, quem está de uniforme olha para baixo, quem não está olha para cima.
Nem todos são assim, há gente nos dois lados que sorri, conversa, é simpática com todos. Mas, pelo visto, são os rebeldes.