Por que ao falar com algumas pessoas fica sempre a impressão de que estamos conversando com um legume?
No subterrâneo frio e úmido de uma livraria na Rua Aurora.
Nenhum ruído da rua entra, nenhum barulho sai. "Se eu tiver um treco aqui vão demorar dias para descobrir". Mas tinha uma coleção do Suplemento Literário do Estadão. Ok, iria acompanhado de boa leitura.
Há catorze anos o primeiro dia de férias significa um passeio biblio-gastronômico pelo centro velho. Começou no primeiro ano de faculdade, a necessidade achar livros e comida com orçamento de guerrilha. Depois virou hábito.
Pontos gastronômicos são poucos. Para que comer se há livros a comprar?
A padaria Sta Teresa, na Praça João Mendes, desde 1872; o Rei do Mate original, da Av. São João - com leite e guaraná - desde 1952. A Casa Califórnia, na Rua São Bento. Sem graça depois que Nívio Carvalho, dono do lugar, vendeu há dez anos. Fazia um sanduíche de lingüiça com trema que era ótimo.
O circuito de sebos começa na Av. Paulista. Dois na Consolação, descendo até a Av. São João (mais três), subindo pela Galeria do Rock - she loves you, yeah yeah yeah - quando ainda não era Galeria-de-qualquer-coisa-menos-rock - e parando no Rei do Mate.
Atravessar o Viaduto do Chá até a Líbero Badaró - mais dois + banquinha de CDs - e passar na São Bento x José Bonifácio, outros dois. Messias da Quintino até a Sta Teresa na Praça João Mendes.
Na calçada do Messias, mais cinco. Praça Carlos Gomes, outros três - um deles muito caro, por sinal. Só entrava para fazer turismo.
Finalmente, descer até o Messias da Brigadeiro, agora Aliança, e, várias sacolas depois, subir tudo de novo até a Paulista.
A imagem clássica, com livros espalhados randomicamente em todos os cantos desapareceu. Mais seletivos no acervo, agora só tem livros mais novos, conservados, bonitos. O sebo ficou politicamente correto.
O caminho também mudou, agora é outro. Mas passar algumas horas rodeado de livros, poeira e ácaros por todos os lados é instrutivo.
Mostra o quanto falta.
Não é detestável como as profundezas do inferno quando você está ouvindo um CD do Monthy Python, começa a rir feito um doente, passa uma pessoa do seu lado e olha com um ar de desprezo?
Atualização posterior:
...e você está com My Bonnie, cantada por Tony Sheridan & The Silver Beatles na cabeça?
O curioso de ler uma história depois de viver no cenário é que algumas coisas passam a fazer mais sentido.
As cores, formas, desenhos e traçados das ruas, espaços vazios, nomes de lugares, tudo tem uma razão - não estão ali simplesmente por obra sobrenatural.
Dá sabor a um passeio saber que a Rua Direita ficava à direita de outra, ou que o Viaduto do Chá conduzia às fazendas de chá onde hoje fica a Praça da República (durante o Império evidentemente não fazia sentido ter esse nome) ou que o colégio jesuíta era mais ou menos onde fica o Páteo do Colégio.
Isso em quinhentos anos de história dá uma sensação ótima. Quando a história tem dois mil anos, faz mais sentido ainda.
Em especial quando o livro é instigante o suficiente para ler em um domingo nublado, entre um almoço de aniversário e o jogo do Brasil.

Agora deu para entender os 365 pubs e as 52 igrejas. Mas não o sotaque.
Parece marmelada ficar falando de livro de amigo, mas li hoje Rádio e Cidade - Vínculos Sonoros, de José Eugênio Menezes, e vale comentar.
O primeiro mérito é o estilo: a escrita deixa transparecer o professor. Temas encaixados de forma didática, passo-a-passo pelas idéias da comunicação até a principal: o rádio reforça vínculos entre pessoas e lugares.
Segunda novidade, falar de rádio como parte das interações humanas, algo raro na teoria da comunicação.
Finalmente, porque é legal: não parece um doutorado.
O que é bom.

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