"Oi, eu entendo de cinema, fala comigo?"

Começou a Mostra de Cinema. Nesta época aparecem os WannabesCinema.

Infiltram-se entre quem realmente gosta/entende. Difícil de ser detectado, copia os cinéfilos. Só não sabe o que está falando.

Veste-se de maneira despojada, simples. Compra sua simplicidade em roupinhas de marca. Tem um olhar blasé de quem está cansado de ser tão inteligente, tão bonito, tão articulado.

Em um primeiro papo, impressiona. "Nossa, esse cara conhece". Quanto mais hermético o filme, mais ele vai dizer que gosta. Afinal, só os inteligentes enxergam a roupa nova do Rei. Mas não resiste a uma segunda conversa.

Sabe de cor as palavras "iraniano", "estética da fome", "ralo", "Salles". Quando um deles usa essas palavras tenho vontade de gritar "Bingo!". Geralmente me contenho.

Os WannabesCinema são os Emos da Mostra.

Paciência.




HAHahah aHA HAHAHAHA hahaha AHHA HAHA
HAhahahah HAHA HAHhaha haahaAHHAHAAH
AaHAHAHAHa HAAAHAHAHAH HA HA haha...

te devo um barco!
Gratias Agimus Tibi




Laudate Dominum Omnes Gentes
Laudade Eum Omnes Populi
Quoniam Confirmata est Super nos
Misericordia Eius
Et Veritas Domine Manet in Aeternum.
Da amizade

Maria Lúcia, a Mara, sempre foi uma presença distante. Era a "melhor amiga da minha mãe" desde os tempos de colégio. Quase nunca a via; de vez em quando se manifestava em um telefonema ou outro.

Era o vínculo de minha mãe com sua juventude: desde os 15 anos elas estudavam juntas, fumavam escondido (céus!), matavam aula (credo!), iam discutir política lá em 1960.

Mara era "papo-firme". Politizada, liberal, envolvida com o tempo, fugiu da cavalaria.

A amizade delas era um desafio: eu conseguiria manter uma assim? Meu amigo mais antigo, hoje maestro da Orquestra da Unesp, conheci há 23 anos. O grupo Aleph tomou o controle há 12.

Depois Mara casou, teve um filho, enquadradou. Da juventude só levou o cigarro. Deixou a política para trás, mudou-se de São Paulo. Teve um filho que a mãe classificaria como "quadrado". Lady Jane.

E o tempo passava e a amizade do presente virou a saudade do passado. E os filhos cresceram, casaram, e a vida passou em seu ritmo sufocante.

E o velório de Mara, hoje, é em Guaratinguetá.
Elevator Action - no. 3
Peça em um ato


CENA: um edifício em São Paulo, 6h53 da matina. LM espera o elevador. Nas mãos, segura o livro "A Teoria Geral dos Signos", de Lúcia Santaella. O elevador chega. Ele entra. Dentro do elevador está uma Senhora Sorridente.

LM: "Bom dia!"

SenhoraSorridente: "Que bom dia animado! O que você está lendo aí?"

Ela olha a capa do livro e, em seguida, volta a olhar para LM.

SenhoraSorridente: "Signos! Eu também gosto muito de astrologia!"

LM: "Bacana, né?"

Elevador pára no térreo. Os dois saem.

CAI O PANO
A terceira década - um diálogo telefônico


"No Pão de Açúcar o leite está a R$ 1,89".

"Sério? No mercado aqui perto eu paguei R$ 2,00".

"Vale a pena ir no Pão de Açúcar".

Uma pausa.

"A gente costumava trocar dicas de literatura, Rê".

"É...".

"É.............."
15 de outubro

 

Aos que me ensinaram que o conhecimento só acontece no diálogo, uma homenagem.

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